 Dom Roberto

 Cântico Final - 1975

 A Última Pega - 1964
 Operação Dinamite - 1967
 Lotação Esgotada -





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Abel Escoto aip ( honorário)
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| Associado Honorário | |
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HONORáRIOS
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Data de Nascimento - 1919-08-07 Nascido em: Águeda |
Rua Soares dos Reis, 7 - 3º Dtº 1070-270 Lisboa |
Tlf.: 213885269 Tlm.: 936238215
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| Outras Informações | | |  | Abel Escoto e as Fitas do seu tempo
Hoje, com 85 anos de idade, recorda os seus tempos de cinema com saudade. Uma contagem que impõe respeito. Cinquenta anos de câmara ao punho. Filmou reportagens, fotografou e realizou documentários. Filmou longas metragens e, por fim, terminou a carreira em 1992 na área da publicidade.
Abel Escoto nasceu em 1919, um ano depois do fim da I Guerra Mundial, e tinha sete anos apenas quando o Marechal Gomes da Costa irrompeu por Lisboa para implementar a ditadura.
As câmaras desse tempo eram manuais. Tinha que se dar à manivela.
Viveu e estudou em Castelo Branco e foi aí que teve o primeiro contacto com a sétima arte. Era o tempo do cinema mudo com pianista ao vivo. Esta arte fascinou-o e marcou-o para sempre. Frequentava o cinema da cidade e comprava os pedaços de filme. O próprio cinema vendia os cortes às papelarias para estas venderem à rapaziada. Ele próprio, em criança, fez um projector de uma caixa de sapatos. Os pedaços de película cortados das bobines dos filmes que as papelarias vendiam serviam para as suas projecções. Uma vocação estava genuínamente escolhida.
Foi porém com outras câmaras que Abel Escoto fez o seu percurso profissional, embora os meios em nada ajudassem, como explica: “Trabalhei em condições paupérrimas. Sempre com falta de condições para filmar. Queria coisas e não tinha. As próprias esferovites eram um caso sério e um problema. Quando fiz o meu último filme com o Manuel de Guimarães, o “Cântico Final”, ele prometeu que me iria dar luzes e uma câmara boa. Quando chegou a altura tinha material de há quinhentos anos.
Naquele tempo dizia-se que os filmes eram uma porcaria. Pois eram. Não havia possibilidades de fazer melhor”.
O Cinema português tem sempre vivido de falta de meios. Se hoje em dia já é acessível uma componente técnica moderna e actual, faltam outras condições de execução. Enquanto no tempo de Abel Escoto as câmaras que utilizou eram o que eram, outros países possuíam uma tecnologia mais avançada. Por cá utilizavam-se câmaras em segunda mão. Os projectores ainda eram do tempo do cinema mudo. Para melhor nos localizarmos não há melhor do que a sua própria descrição. “No meu primeiro filme como director de fotografia, “D. Roberto”, já sabia que não ia ter condições. Mas foi muito pior do que imaginara”, explica. “Havia um médico dentista que tinha uma câmara Super-Parvo guardada numa capoeira. A máquina estava cheia de caliça, objectivas riscadas, um horror. Com a ajuda do assistente de focos, Mário Pereira, efectuámos limpeza, reparações, escalas de foco e assim fizemos a fita do Ernesto de Sousa”.
É muito curiosa a forma como este profissional começou. Não foi pela imagem, mas pelo som. Estamos em 1946, um ano depois de terminar a II Guerra Mundial. Abel Escoto era técnico de som na Cinerádio quando lhe surgiu a oportunidade de assistir um seu colega na estreia absoluta de uma mulher no cinema português: Bárbara Virgínia em “Três Dias sem Deus”. Assitiu no som em parte do filme “Heróis do Mar”. Mas, dada a escassez de pessoal especializado no cinema naquele tempo, recebeu um convite inesperado. O operador de câmara que estava no filme tinha que abandonar a rodagem de “A Morgadinha dos Canaviais”. Aceitou tomar o seu lugar mesmo sem qualquer experiência anterior. Mas o ensinamento que teve na rodagem na área de som e uma vocação institintiva para a câmara dá-lhe o glorioso visionamento das rushes do primeiro dia de filmagens como operador. O sucesso profissional imediato e os parabéns unânimes da equipa nesse dia, destinavam-lhe a carreira. Não mais regressa ao som excepto num filme onde era já operador de câmara. Uma daquelas circunstâncias à boa maneira portuguesa, para “desenrrascar” um problema e gravar a orquestra para a música do filme.
A sua carreira como director de fotografia é pautada pelo cinema que se fazia naquela época. Depois dos anos de ouro da Tobis com os filmes dos anos quarenta, as décadas seguintes são o deserto de ideias e de financiamento. Havia ainda a ditadura que censurava tudo. Só se podia fazer filmes “estilo light”.
Abel conta-nos o caso de Manuel Guimarães, realizador com quem conviveu e colaborou até ao fim: «A fita “Saltibancos” arruinou-o . Teve que vender tudo para pagar as dívidas».
Há em todo o percurso de vida de Abel Escoto um sentido verdadeiramente pioneiro. O empenho, o espírito militante. Era sempre uma aventura fazer uma fita, como se chamava aos filmes naquele tempo.
Só resiste quem gosta mesmo do cinema. As condições salariais e de trabalho são uma miragem. O profundo miserabilismo da inexistente indústria levava que cada filme fosse sempre uma descoberta. Só o empenhamento e mesmo o sacrifício os fazia lançarem-se em nova aventura onde tudo seria possível. “Dei-me sempre bem com todos”, afirma. “Trabalhei sempre com bons profissionais. Pessoas que estavam ali porque gostavam de cinema”.
Repórter de actualidades para a empresa de Lopes Ribeiro, teve oportunidade de viajar pelos diferentes cantos do mundo, acompanhando as comitivas do governo de então em acontecimentos especiais. São dele muitas das imagens que vemos nos documentários sobre o Estado Novo.
Veio o 25 de Abril e uma nova mudança se dá na vida de Abel. A sua carreira termina com a revolução: “E por ironia”, diz, “o meu último filme tem o título sugestivo de “Cântico Final” que foi o cântico final da ditadura e também para o realizador, coitado, que morreu ainda não tinha acabado a fita. E ele que tanto ansiava pelo 25 de Abril”.
Chega a nova geração de realizadores do Cinema Novo Português e este profissional da imagem já não apanha, por pouco, essa geração.
Termina os seus dias na profissão como director de fotografia em publicidade.
“Não me sinto inteiramente realizado profissionalmente”, revela. “Gostaria de ter tido a oportunidade de fotografar um bom filme. Se pudesse ter, na altura, possibilidades materiais para o fazer. Hoje há material de boa qualidade. Mas naquele tempo não havia”, remata como conclusão quando se lhe pede o balanço final de uma vida agarrado à câmara e às fitas.
Graças à abnegação de Abel Escoto e de outros da sua época, que se sacrificaram muitas vezes por um ideal, por um sonho, é possível hoje às restantes gerações dar continuidade a esta profissão.
Este homem pode orgulhar-se de ter percorrido todo o seu tempo de carreira entre duas guerras mundiais, duas revoluções, entre as guerras de África, na mais conflituosa vida social que o país e o mundo viveram.
Um director de fotografia não é apenas um técnico que sabe manejar uma máquina. É uma pessoa equilibrada que percebe do seu ofício, que sabe ouvir, avaliar situações, que comanda uma equipa. E para poder reunir estas qualidades é necessário ter um bom carácter. Foi isso que se evidenciou aqui, sobre uma personalidade e a sua história. Abel Escoto conduziu a sua vida de forma idónea. Correcto no trato e correcto para com os seus colegas. Aqueles que com ele privaram nas rodagens não têm hoje uma crítica a apontar-lhe. Por isso se pode orgulhar de ter atravessado a vida e sair dela de cabeça erguida. Um verdadeiro cameraman.
Tony Costa
Revista Imagem Cinematográfica Setembro 2004 | | |
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