Editado por Mário Melo Costa

António Escudeiro será homenageado na Cinemateca

October 14, 2018

Numa merecida homenagem ao nosso membro honorário António Escudeiro aip, recentemente falecido,  a Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema passará o seu filme « Adeus, Até Amanhã (2007 no dia 2 de Novembro pelas 21.30 na Sala Félix Ribeiro.

O documentário documenta o seu regresso a Angola de onde saíra à pressa para Portugal depois dos turbulentos acontecimentos pós- 25 de Abril que despoletou numa sangrenta e devastadora guerra civil em Angola e também em Moçambique ambas ex-colónias portuguesas por mais de uma década. 

Sinopse de 2007 «António Escudeiro nasceu, cresceu e trabalhou em Angola, até ao dia em que se viu forçado a vir embora. Jurou voltar. Mas o regresso a casa só se tornou realidade 32 anos depois. “Adeus, até Amanhã” é o documentário deste regresso onde se cruzam e confrontam dois universos visuais. As memórias do realizador e a Angola de hoje.»

        Teríamos muito gosto em contar com a tua presença e para confirmar basta responder a este email para reservar a tua entrada ou entradas ou diretamente para divulgacao@cinemateca.pt

 

Texto publicado por Ana Margarida de Carvalho in Visão em 18 de outubro de 2007 por ocasião do lançamento do DVD sobre o mesmo filme.

 

«E um dia ao angolano António Escudeiro disseram: “Vai-te embora!” Corria o ano de 1975, trabalhava com imagem para o Governo de transição do MPLA. “Vai-te embora mas não amanhã, vai hoje, já!” A 16 de Setembro, sem malas, sem resgatar o depósito bancário, só com a T-shirt e os calções que trazia vestidos, o realizador, fotógrafo e diretor de fotografia aterrou noutros horizontes (exíguos), noutras temperaturas (amenas), noutro continente (branco), noutro mundo (também amotinado). Há 32 anos, António Escudeiro disse “Adeus”. Hoje diz apenas “Até amanhã”. Um documentário on the road, 4 mil quilómetros, 25 dias em Angola: Lobito, Huambo, Huíla... Um roteiro sentimental, sem nostalgias estéreis nem saudosismos serôdios. Em que cada plano, captado quase sempre com tripé, tem a força de uma fotografia, de enquadramentos avaliados, e pontos de fuga e luz calculados ao pormenor. Escudeiro percorre aquela geografia que sempre considerou tão sua, desde o nascimento, infância, adolescência à idade adulta: “Sou angolano, sempre fui. Nunca me considerei outra coisa.” E desce (ou seria melhor dizer, sobe) àquele “estranho paraíso”. Entra nas suas velhas casas de infância, hoje pele e osso, descarnadas daquilo que foram. Passa por fachadas cravejadas de balas. Atravessa cidades-fantasma, onde os governantes vestem Armani, e o povo ainda agora renasce, na pujança de alguns mercados, cinco anos passados sobre a guerra. Tira sangue (“um gesto simbólico”) no velho e desertificado hospital – para depois se cruzar com a enfermeira, por acaso, na rua, que o alerta para os valores baixos de hemoglobina. Viaja nos obsoletos comboios, que de vagões de mercadorias se fizeram carruagens de passageiros. Demora dois dias nas crateras lunares do alcatrão, quando dantes o percorria em meia dezena de horas. Passa por colunas de 40 atascados e resignados camiões. Percebe, em Luanda, que as maiores inseguranças são os... seguranças, as extorsões e “o dinheiro para a gasosa”. No Huambo, detém-se no arruinado cinema ruacaná, corroído por dentro como uma cárie dentária. Senta-se na plateia, espectador de coisa nenhuma. Era ali que haveria de começar o filme. Assim foi.»

 

 

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