Editado por Mário Melo Costa

SUL - Entrevista a Pedro Cardeira

October 6, 2019

 

SUL - Série 9 episódios

 

Um inspetor da Polícia Judiciária (Adriano Luz), niilista e socialmente incapaz, investiga um conjunto de mortes suspeitas no Rio Tejo. Enquanto a investigação decorre, um país angustiado por uma forte crise económica e social agita-se. Estreia dia 29 de Setembro às 21h a série SUL, produzida pela Arquipélago Filmes, realizada por Ivo M. Ferreira, autoria de Edgar Medina e Guilherme Mendonça e com fotografia do nosso membro  Pedro Cardeira. A série foi apresentada no Festival de Cinema de Berlim e no IndieLisboa 2019 e foi inteiramente filmada em Lisboa e arredores.  

 

 

Falámos com Pedro Cardeira e colocámos algumas questões:

 

1 – Em que formato filmaste estes episódios?

 

A série foi filmada em UHD (16:9) com câmaras Sony FS7 e objectivas Ultraprime. Também usamos a zoom Zeiss 20-100 para cenas no rio. 

 

2 – Quanto tempo de rodagem para cada um dos 45 minutos?

 

Tivemos no total 12 semanas de filmagens. O guião da série é muito complexo porque é uma história multiplot, com várias personagens e enredos a decorrer alternadamente. Tínhamos 80 decores e 120 actores! Uma loucura para um série portuguesa com os orçamentos que a nossa indústria pratica. 

 

3 – Filmar no rio nunca é fácil como abordaste as cenas no rio Tejo? 

 

Toda a série tem como personagem principal Lisboa e não podemos conceber a cidade sem a sua relação com o rio e a margem sul. Filmar no rio Tejo, especialmente nas cenas nocturnas foi um desafio. Na realidade estas cenas foram feitas numa única noite. Tínhamos de filmar rapidíssimo para conseguir cumprir esse dia de trabalho. Não havia nem tempo nem meios para iluminar muito. Deste modo, optei por ter pontos de vista com a cidade de fundo. Permitia não só relacionar-nos sempre com a cidade, como teria um fundo que reflectia sobre as águas do rio. Como o corpo era descoberto por um cacilheiro, coloquei Par 64 (operado por um dos nosso iluminadores) na coberta do barco para reforçar a iluminação e inclusive utilizei os holofotes do cacilheiro. 

 

Foi extremamente complicado coordenar os movimentos do cacilheiro com o bote onde se encontrava a câmara, devido às fortes correntes do rio. Felizmente, como a iluminação era operada permitiu que tivesse sempre direcionada para onde queríamos. Por outro lado, optamos por utilizar um Ronin como estabilizador, o que permitiu resolver muitos problemas na coordenação dos barcos. O Ronin (bem como a steadicam durante boa parte da série), foi operado pelo Leandro Silva, que fez um trabalho fantástico e é, sem dúvida, um dos melhores operadores que temos entre nós.

 

Os planos subaquáticos foram feitos nessa mesma noite dentro do rio Tejo com uma dupla da actriz. Foi terrível devido às correntes do Tejo. Dificilmente ela conseguia se manter na posição ou nós conseguíamos manter o barco junto dela. Felizmente, o Miguel Malheiros, que operou com uma Sony a7S II em caixa estanque, conseguiu captar as belas imagens que vemos no início da série. 

 

Toda a cena foi filmada em low low key que graças à grande sensibilidade das câmaras permitiu captar muito detalhe nos negros. Inclusive, quando chegamos ao grading pedi à Andreia Bertini (da Walla Collection) para baixar o céu porque não era credível ver-se tanto detalhe.

 

4 – Com o realizador abordaste alguma estética específica para esta série?

 

Esta série foi um longo processo de maturação. Filmámos um longo teaser em 2016, para que a Arquipélago Filmes conseguisse apoios, quando ainda boa parte da série não estava escrita. Nessa altura, nem sabíamos bem o que ia acontecer a seguir, apenas sabíamos que iriam haver várias personagens e que os seus destinos se cruzariam. O Edgar Medina, produtor e um dos autores da série, apenas nos disse que esta era uma série negra, lisboeta e mediterrânea. Desde aí, ficou esta ideia que nos perseguiu para sempre. Fui mostrando ao Ivo Ferreira e ao Edgar Medina imensos exemplos que se não se tornaram propriamente referencias mas ficaram-nos na memória por que eles gostaram. Poderia ser um filme inteiro, uma cena ou apenas um plano. A partir daí, fomos vendo os decores e construindo o estilo. Não queríamos propriamente Film Noir look, mas algo mais Neo Noir, em que houvesse cambiantes subtis entre os mundos das diversas personagens. Optámos por ter os espaços do Humberto (Adriano Luz) mais quentes e densos, os do Matilha (Afonso Pimentel) mais saturados e contrastados, a igreja do Santoro (Ivo Canelas) mais fria. Isto permitiria também mostrar os diversos ambientes da cidade de Lisboa. Em reuniões com a nossa directora de arte, a Nádia Henriques, fomos também definindo uma paleta de cores, tendo este principio em mente. Devo dizer que a Nádia fez um trabalho incrível com os habituais poucos recursos e tempo e uma enormidade de decores! 

 

5 – Na apresentação do filme diz-se que é um filme arrojo moderno no estilo o que fizeram para sair do classicismo imposto pelas regras convencionais?

 

Classicismo não pertence ao léxico do Ivo Ferreira. Portanto, à partida sabíamos que iríamos para um estilo mais moderno. Mas também sabíamos que teríamos de estar dentro das regras do género para não o trairmos. Não era uma questão de subvertermos as regras mas de as repensarmos, adaptando-as à realidade de Lisboa. Ao contrário do que se espera no Film Noir, grande parte da série passa-se de dia. Procurou-se ambientes industriais e bairros históricos e típicos, não apenas para acentuar o lado lisboeta mas criar uma coesão visual. Estes locais têm muito em comum em termos lúminicos, possuem janelas que marcam e definem bem a luz e cria-se assim uma rima entre eles. Permitiam ter zonas de luz que contrastavam com zonas de escuro. No entanto, nunca quis que se deixasse de ver no escuro porque seria aí que estas personagens se iriam movimentar, onde o seu lado mais obscuro existe. Ao invés de termos personagens desenhadas pelas luz, temos espaços desenhados e personagens que circulam livremente. Desta forma, o espaço, e neste caso Lisboa, ganha importância, mantendo a relação com o género. Por outro lado, usamos quase sempre pontos de vista com janelas ao fundo, luz forte a entrar por elas. O espaço interior atira-nos sempre para o exterior, quente, mediterrâneo, o sul, tal como perguntam sempre as personagens ao longo da série: “Já pensaste largar tudo e partir para o Sul?”. 

 

6 – Quem foi a tua equipa? 

 

Foi uma honra ter comigo uma equipa de luxo. Para além do Leandro Silva que já referi e que foi substituído pelo Tiago Faria porque tinha um outro trabalho já marcado, tive a "Dra.” Silvia Diogo como 1ª Assistente da câmara A e o Marcel Encarnação na câmara B, o António Silva como 2º assistente e o Francisco Duarte como 3º assistente, para além das minhas queridas estagiárias Mariana Quaresma, Mafalda Fresco, Luiza Cardoso e Inês Albuquerque. A Lisa Persson e a Joana Magalhães fizeram comigo cenas adicionais. Na equipa de iluminação e maquinaria tive como chefe  Hugo Espirito Santo, assistido pelo o Artur Andrade, José Loureiro, o Topé Santos, o Fábio Alas e muito outros que foram vindo como reforços. Nas cenas adicionais, o Artur Andrade passou para chefe por indisponibilidade do Hugo. “Last but not the least”, já referi a Andreia Bertini, a nossa “feiticeira das cores”. Tenho que agradecer a todos o trabalho extraordinário, a dedicação e a boa disposição numa rodagem tão exigente e difícil. 

 

7 – De onde veio o equipamento de câmara/iluminação/maquinaria?

 

O equipamento de câmara foi uma “salada russa” porque teve várias proveniências. A Arquipélago Filmes tem a sua própria Sony FS7 e eu trouxe a câmara da minha empresa Inner Harbour Films em Macau. O Leandro usou o seu próprio steadicam e estabilizador. Tudo foi “embrulhado” com o restante equipamento da Planar, que mais uma vez conseguiu “misturar e temperar esta salada”. Se tiver de nomear apenas um fornecedor de equipamento de câmara nesta série, a Planar será com certeza a escolhida. O restante material de iluminação e maquinaria veio da Smiling. Resta-me referir que ao longo da série houve várias equipas de drone que vinham conforme as disponibilidades e o Miguel Malheiros, que fez as imagens subaquáticas, utilizou o seu próprio equipamento.

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