Como todos os anos, a AIP e a Cinemate entregam o Prémio Fernando Costa e, em 2026, a honra vai para um nome querido por muitos: o maquinista Manuel Ramos, perdão, Manuel dos Cavalos.

E comecemos precisamente pelo apelido — aquele que ficou para sempre colado a um dos mais prolíficos maquinistas do cinema português. Com mais de 100 longas-metragens no currículo, Manuel Ramos colaborou com uma impressionante diversidade de diretores de fotografia, nacionais e internacionais. Mas poucos — ou nenhuns — o conhecem por esse nome. Para todos, é simplesmente Manuel dos Cavalos.
Também conhecido, diga-se com carinho, por ter o fusível da paciência algo curto, a alcunha nasceu de uma situação absolutamente banal. No início da carreira, Manuel encontrava-se no armazém da Cinemate com outros colegas: o grupista Manuel Vide (que já homenageámos), Manuel Canhanga e ele próprio. Três Manueis, portanto. Entra em cena Alberto Fosco, grupista na época, que chama em voz alta: “Manuel!”. Os três respondem em uníssono. Tentando ser mais específico, Alberto aponta e remata: “Esse aí, o Manuel dos Cavalos!”. Estava feito. O nome ficou, para sempre.
Com o devido respeito, e também por uma questão de identificação entre colegas, decidimos manter o nome Manuel dos Cavalos ao longo deste texto e na cerimónia de entrega de prémios, até porque ele não se importa. Nos genéricos dos filmes, a tradição também se consolidou: surge frequentemente como “Manuel Ramos (Cavalos)”, para garantir que ninguém se engana no Manuel certo. Esta prática começou no filme Três Irmãos, a segunda longa-metragem de Teresa Villaverde, onde assumiu funções de chefe maquinista.

Curiosa é também a forma como Manuel chegou à profissão. Tudo começou com um curso criado pela Cinemate, com apoio da então CEE (atual União Europeia) e do IPC (antigo nome do ICA). No contexto da integração de Portugal na CEE, surgiram vários programas de formação profissional e, em 1989, a Cinemate lançou um curso específico para formar maquinistas e eletricistas de cinema, em cooperação com o IPC. Por coincidência — e alguma sorte —, Manuel acabou inscrito no curso de maquinaria, apesar de a sua primeira intenção ter sido o de eletricidade. Antes do serviço militar, trabalhara num armazém de material elétrico e era essa a área que conhecia melhor. No entanto, o curso de eletricidade decorria ainda durante a sua última semana na tropa. Quando se apresentou, já era tarde: entrou apenas na semana seguinte… no curso de maquinista. E quem era o instrutor? Vasco Sequeira, figura lendária da área, também já por nós homenageada.
Entre os colegas de curso estavam António Milheiro e Pedro Paiva (ambos hoje chefes eletricistas), bem como João Souto, fundador da empresa Lightset. João chamava-lhe “Neivi” (do inglês navy), por Manuel ter vindo da Marinha, onde cumprira serviço militar. Mas, como se sabe, a alcunha que realmente pegou foi outra, a dos cavalos.
É impossível revisitar esta história sem sublinhar a importância da formação profissional. Num tempo em que a oferta formativa era escassa, a visão e o empreendedorismo de Ana Costa e do seu pai, Fernando Costa, foram determinantes para toda uma geração de técnicos. Foi, aliás, com Ana Costa que este prémio foi criado.

Voltando ao curso: o atraso de uma semana revelou-se, afinal, uma feliz coincidência. “Tive sorte em cair no lugar certo”, diz Manuel, com humor. E acrescenta: “Tive o privilégio de fazer o que gosto. Deus não me deu dinheiro, devia era ter gastado menos”, ri-se, “mas deu-me o prazer de trabalhar no que amo.”
Começou como assistente, como mandam as regras, mas rapidamente chegou a chefe maquinista. E quem lhe deu o empurrão decisivo? “Foi o Gordo!”, diz, referindo-se a Fernando Costa, o nome que hoje dá corpo a este prémio. “Confiou em mim muito cedo e mandou-me para filmes como A Força do Atrito, Adeus Princesa e O Crime de Luxo.”
Sobre este último, guarda um episódio inesquecível. “Cheguei cedo ao plateau, ali para os lados do Restelo, onde filmávamos num cinema antigo. Vejo o realizador, Artur Semedo, chegar com a camisola do avesso. Meio atrapalhado, aviso: ‘Olhe que tem a camisola ao contrário.’ E ele responde, todo seguro: ‘Assim dura o dobro!’” Manuel ri-se ainda hoje, como se a cena tivesse acabado de acontecer. Há outra que conta com igual prazer: “Às vezes havia coisas em campo que não deviam estar e alguém dizia ao Artur: ‘Olhe ali aquilo!’ E ele respondia: ‘Se alguém vir isso é porque não está a ver o filme!’”
Entre episódios divertidos e exigentes desafios técnicos, houve também momentos duros. Em 1995, sofreu um acidente grave durante uma rodagem em Cabo Verde, que o deixou inativo durante meses, no auge da carreira. Felizmente, recuperou e voltou ao que mais gosta de fazer. Recorda com particular entusiasmo os travellings na neve, na Bósnia, para um filme de André Gil Mata, com João Ribeiro na direção de fotografia. “Travellings de 75 metros! Adorei, foi um grande desafio”, conta, com orgulho visível.
Nascido em Huambo (Nova Lisboa), Angola, em 1966, Manuel veio para Portugal aos oito anos, na sequência do 25 de Abril, integrado na vaga de retornados das ex-colónias. Instalou-se no bairro da Serafina, onde ainda hoje vive — mudou de casa três vezes, mas nunca abandonou o bairro. Frequentou a Escola Maria Amélia até ao 9.º ano e começou depois a trabalhar numa serralharia. Era o início, embora ele não imaginasse, do percurso que o levaria ao cinema.
Face a tudo o que aqui se relata, este prémio assenta que nem uma luva na personalidade e no percurso profissional de Manuel dos Cavalos.
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